Apresentação
O livro que a leitora e o leitor recebem agora é fruto de um trabalho de quase sete anos de um grupo que não mede esforços para pensar a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras mato-grossenses. Com apoio do Ministério Público do Trabalho, 25 pesquisadores (entre professores e pós-graduandos) do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), debruçaram-se sobre a temática da Promoção dos Territórios Saudáveis e Sustentáveis de Mato Grosso, acreditando que, sim, é possível um estado com mais justiça ambiental para seus moradores e trabalhadores. O que o leitor e a leitora vão encontrar nas próximas páginas é um diagnóstico das cadeias produtivas do agronegócio e seus impactos na saúde de milhões de mato-grossenses.
A obra contém 16 capítulos distribuídos por quatro partes que buscam avaliar as diferentes faces da economia do agronegócio em Mato Grosso, propondo saídas baseadas em outros modos de vida possíveis. Na primeira parte, “Características históricas, políticas e ambientais da relação ambiente-território-agronegócio no Mato Grosso”, são apresentados quatro capítulos que mostram a dinâmica das cadeias produtivas, em seus processos de territorialização, os impactos na saúde a partir do exemplo de algumas cidades do agronegócio, as consequências para os biomas mato-grossenses como o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal, e como esse modelo de produção, que se coloca de forma hegemônica, tem gerado conflitos entre o Estado, o Capital e os movimentos sociais. Com uma farta apresentação de dados da economia de Mato Grosso, esse diagnóstico mostra que esse modelo esmaga outras possibilidades de desenvolvimento sustentável, não permitindo cadeias produtivas menos agressivas que possam produzir de forma saudável e sustentável.
Na segunda parte, “Povos do campo, floresta e quilombos: modos de vida, resistências e contribuições para a Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Mato Grosso”, nossos pesquisadores trazem as percepções e os projetos de populações, cujos modos de vida se colocam como contra-hegemônicos frente aos modelos vigentes de produção. Indígenas e quilombolas, além de serem as populações mais afetadas pelo agronegócio, tendo em vista que seus territórios são vizinhos de grandes latifúndios dedicados principalmente à soja e ao algodão, vivenciam em seu cotidiano a luta em defesa de seus modos de vida e seus direitos de produzir e viver em territórios tradicionais. Constituem modelos alternativos de produção, ao mesmo tempo em que são alvo de necropolíticas incentivadas pelo Estado, incorporando a resistência em seu dia a dia.
Já na terceira parte, “Panorama sanitário e ambiental no estado de Mato Grosso”, as pesquisas se concentram na apresentação dos indicadores que medem os impactos desse modelo de produção agrícola nas matrizes ambientais e na saúde das populações. Os números são aterradores e não deixam dúvida de que o consumo de agrotóxicos está diretamente ligado ao perfil epidemiológico das cidades produtoras. Os impactados são desde os trabalhadores e trabalhadoras do campo que manuseiam diretamente os produtos químicos, quanto moradores e moradoras de áreas próximas ao cultivo, que sofrem os impactos de pulverizações desastrosas, e pelo consumo de produtos derivados do agro. As pesquisas ainda buscam contribuir com a criação de um índice de território saudável e sustentável, uma proposição que se faz urgente na intenção de constituir uma vigilância sanitária focada em ambiente e trabalho.
Por fim, a quarta parte, “Impactos da cadeia produtiva do agronegócio na saúde e no ambiente”, aprofunda a discussão do capítulo anterior, trazendo outros elementos que impactam a vida dessas populações como as violências interseccionais, o sofrimento mental e as injustiças ambientais que se agregam a esse modelo hegemônico de produção. Não é à toa que Mato Grosso figura com elevados números de casos de câncer, além de outras doenças associadas a esse contexto, como a hipertensão arterial, doenças respiratórias, renais e neuropatias periféricas. As pesquisas aqui apresentadas sugerem que essas cadeias produtivas do agro sejam consideradas como determinações do processo de saúde e adoecimento, detalhando ainda a poluição e a contaminação de matrizes ambientais, como a água disponível para consumo humano.
Esperamos que os resultados das pesquisas aqui apresentadas sirvam de reflexão para novas pesquisas, e também para aqueles que detém esses meios de produção, para que estejam cientes de suas responsabilidades ambientais e legais. Mais ainda, que estas pesquisas fomentem políticas de prevenção à saúde dos trabalhadores e trabalhadoras que lidam diretamente com essa produção agrícola e com os moradores e moradoras das cidades que são impactadas. Mas também se fazem urgentes leis e fiscalizações que minimizem esses impactos, que promovam formas de produção menos agressivas aos humanos e seus ambientes, e que permitam, de fato, a promoção de territórios saudáveis e sustentáveis.
Se o trabalho que finaliza agora em forma de livro se tornou possível é porque nós do NEAST e do Ministério Público do Trabalho acreditamos, com todo o apoio da ciência e legislação, que é possível produzir sem agredir, com políticas de coabitação em que humanos e não humanos, trabalhadores e sistemas produtivos possam produzir formas de bem viver. Boa leitura!