Resumo:
Introdução – O território de Mato Grosso tornou-se estratégico para a produção agropecuária capitalista mundial. Essa cadeia produtiva, baseada hegemonicamente no modelo de produção de latifúndios monocultores, é químico-dependente de milhões de litros de agrotóxicos, e vem produzindo poluições ambientais, agravos à saúde e processos de vulnerabilização para a população. Objetivo – Analisar o consumo de agrotóxicos na produção agrícola, a contaminação ambiental por agrotóxicos e os processos protetores e destrutivos no território escolar, como componentes da vulnerabilidade socioambiental nos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio, em Mato Grosso. Método – A partir do referencial teórico-metodológico da Epidemiologia Crítica, realizou-se um estudo com abordagens quantitativas e qualitativas, de caráter participativo. A pesquisa foi realizada em seis escolas, uma escola rural e uma escola urbana nos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio, e contou com a formação de um Grupo Condutor em cada escola, composto de estudantes e um professor, que acompanharam e participaram do desenvolvimento da pesquisa. Com os Grupos Condutores foi realizada uma oficina de mapeamento da vulnerabilidade socioambiental do território escolar e foram coletadas amostras de água de poços artesianos e chuva das seis escolas. As amostras coletadas foram analisadas para detecção de resíduos de agrotóxicos, pelo método de extração em fase sólida C-18, identificação e quantificação em cromatógrafo a gás acoplado a espectrômetro de massa (CG/EM), para nove ingredientes ativos: atrazina, lambda-cialotrina, endossulfam α, endossulfam β, malationa, metolacloro, metribuzim, permetrina, trifluralina. Resultados – Identificou-se no território escolar como principais processos e elementos protetores à vida: as escolas, as árvores e as atividades agrícolas próximas às escolas, pela produção de alimentos e geração de empregos. Entretanto, as áreas de plantio próximas às escolas, devido o uso de agrotóxicos, foi o processo destrutivo à vida elencado de forma predominante em todos os mapas. Nas amostras de poços artesianos foram detectados resíduos dos herbicidas atrazina (0,12 μg/L a 0,28 μg/L) e metolacloro (0,34 μg/L a 0,63 μg/L) em quatro poços artesianos, dos seis poços analisados. Nas amostras de chuva 55% apresentaram resíduos de pelo menos um tipo de agrotóxico entre os detectados (metolacloro, atrazina, trifluralina, malationa e metribuzim), tendo o metolacloro a maior frequência de detecção (86%) entre as amostras positivas. Conclusões – Os resultados das análises nas amostras ambientais demonstram que os componentes hídricos e atmosférico dos ecossistemas nos municípios estão contaminados por agrotóxicos. Os elementos e processos protetores e destrutivos mapeados no território escolar, bem como as poluições evidenciadas na chuva e em água de poços artesianos, compõem as relações e os processos de vulnerabilização socioambiental das populações destes municípios, sendo relevantes para a atenção e atuação da Vigilância em Saúde nesses territórios.
Palavras-chave: Agrotóxicos, vulnerabilidade socioambiental, avaliação participativa,
contaminação ambiental por agrotóxicos;